Conto de Farsas - Capítulo Um (Parte 3)

em 24.3.13


(...)





Seu pai... ele faleceu há três dias...
Só o que se repetia em minha mente. Desconfio que logo em seguida, Letícia voltou a chorar, mas eu estava abalada demais pra poder reparar em algo. Até então não havia caído uma lágrima sequer de meus olhos, apenas fiquei ali na cama, imóvel.
Sempre achei que quando um de meus pais morresse, minha reação seria chorar até não poder mais, até minha cota de lágrimas se esgotarem. Agora que aconteceu... Não consigo ter reação alguma. Era como se eu estivesse com paralisia nos membros; só sentia a dor, mas não externava. Minhas lágrimas saíam, mas eu não emitia som algum. De repente, imagens passavam em minha mente, como flashes... 

— Mãe, pai... — disse, quando achei que aquele seria o momento perfeito para dar a notícia. Eles me olharam; mamãe virou-se e papai olhou-me pelo retrovisor. — eu tenho uma notícia muito boa pra dar a vocês.
Eles sorriram e disseram em uníssono:
— Pode falar querida! — eles sorriram um pro outro debilmente pelo pequena coincidência e mamãe disse: — Estamos aqui para ouvi-la.
Respirei fundo, estava tão emocionada por tudo estar dando certo em minha vida. Dei um sorriso para mamãe, que também sorriu dócil.
— Eu passei na faculdade! — falei tão rápido, que cheguei a pensar em eles não terem me escutado. Engano meu, eles ouviram. Tanto ouviram que minha mãe dera um gritinho de felicidade:
— Que bom filha. Parabéns, meu bebê! — ela segurou minhas mãos e seus olhos se encheram d'água. Minhas bochechas arderam como se tivessem pegando fogo. Odiava ser tratada como bebê.
— Meus parabéns! — papai dissera, e eu sorri. — Isso merece uma comemoração!
— Temos que buscar a Claire, não? — perguntara eu.
— Vamos sim! — papai dissera-me, e sorrira pra mim pelo retrovisor. — Vamos buscá-la na creche e depois comemoramos no seu lugar preferido.
— Não acredito! — dissera eu, e pudera ver meus olhos brilharem pelo retrovisor. Meu pai assentira levemente. — Starbucks?
— Sim.
— Ai, quanto tempo não como um Muffin! — dissera eu, e minha vontade era tanta que poderia materializar um bem em minha frente. — E nem se fala há quanto tempo não tomo um Cappuccino.
Meus pais riram comigo.
— Mas não é muito bom exagerar no cappuccino. — mamãe dissera cuidadosa. — Lembro muito bem da última vez que você passou super mal por ter exagerado no cappuccino.
— Mãe! - reclamei. — Isso faz muito tempo!
— Pra mim, não! — ela virou-se novamente para trás. — Parece que foi ontem...
— Mãe, eu era pequena...
— Mas pra mim você não deixa de ser o meu bebê!
— Eu não sou mais criança, mãe! — emburrei, cruzando os braços.
— Oh, meu bebê emburrado! — passou as mãos em meus cabelos, sorrindo delicadamente. — Nós te amamos filha. Muito!
Sorri, descruzando os braços, sentindo o carinho.
Eu amava tanto os meus pais, eles eram tão maravilhosos comigo. Aquele momento só confirmava o tão amável eles eram. Eu estava feliz, nada poderia estragar minha felicidade naquele momento. Tudo estava em seu devido lugar.
De repente, ouvimos o som da buzina de um carro seguido da luz de um farol muito alto vindo em nossa direção e meu pai tentara desviar para a pista oposta, um grande erro. Um carro que vinha na direção oposta a nossa, colidiu com o nosso carro. Tombei no banco e tudo ficou escuro...


Acordei do que parecera ser um transe, e me vi sentada com Letícia e Sofia ainda a minha frente, olhando-me com olhos penosos. Então tudo era verdade, não foi um pesadelo, no qual eu acordaria e veria meus pais aqui comigo. Ainda não possuía reação alguma, só continuava imóvel. Como uma estátua. Talvez eu devesse gritar talvez eu devesse chorar, quebrar tudo que havia naquele quarto de hospital, mas simplesmente não conseguia demonstrar reação alguma. Era tanta dor,  se eu demonstrasse não mudaria nada, não adiantaria nada. Absolutamente nada. Chorar não mudaria nada, gritar não mudaria nada, quebrar tudo que havia ali, não resolveria nada.
Mas que droga! Isso não poderia estar acontecendo comigo. Mas estava. É típico de minha sorte.
Eu chorava por dentro, gritava por dentro, quebrava tudo dentro de mim. Pelo menos tentava aliviar a dor incessante. Eu sabia que qualquer dia um deles me deixaria, iria morrer. Lembro-me de quando eu era pequena e minha mãe perguntara se eu choraria se ela morresse. E eu disse que não.

— Por que não, minha florzinha? — ela me olhou sorrindo de canto.
— Ah, mamãe, por que você não vai morrer... — sorri pra ela. — Você vai viver pra sempre.
Fizera um gesto com a mão.
— Mas filha, ninguém vive pra sempre... — ela alisou minha bochecha.
  
Nunca levei a sério o que minha mãe me disse. Talvez por que eu era uma criança, não sei. Ou não queria aceitar que todos nós morremos algum dia.


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