(...)
Seu pai... ele faleceu há três dias...
Só o que se repetia em minha mente. Desconfio que logo
em seguida, Letícia voltou a chorar, mas eu estava abalada demais pra poder
reparar em algo. Até então não havia caído uma lágrima sequer de meus olhos,
apenas fiquei ali na cama, imóvel.
Sempre achei que quando um de meus pais morresse,
minha reação seria chorar até não poder mais, até minha cota de lágrimas se
esgotarem. Agora que aconteceu... Não consigo ter reação alguma. Era como se eu
estivesse com paralisia nos membros; só sentia a dor, mas não externava. Minhas
lágrimas saíam, mas eu não emitia som algum. De repente, imagens passavam em
minha mente, como flashes...
— Mãe, pai... — disse, quando achei que aquele seria
o momento perfeito para dar a notícia. Eles me olharam; mamãe virou-se e papai
olhou-me pelo retrovisor. — eu tenho uma notícia muito boa pra dar a vocês.
Eles sorriram e disseram em uníssono:
— Pode falar querida! — eles sorriram um pro outro
debilmente pelo pequena coincidência e mamãe disse: — Estamos aqui para
ouvi-la.
Respirei fundo, estava tão emocionada por tudo estar
dando certo em minha vida. Dei um sorriso para mamãe, que também sorriu dócil.
— Eu passei na faculdade! — falei tão rápido, que
cheguei a pensar em eles não terem me escutado. Engano meu, eles ouviram. Tanto
ouviram que minha mãe dera um gritinho de felicidade:
— Que bom filha. Parabéns, meu bebê! — ela segurou
minhas mãos e seus olhos se encheram d'água. Minhas bochechas arderam como se
tivessem pegando fogo. Odiava ser tratada como bebê.
— Meus parabéns! — papai dissera, e eu sorri. — Isso
merece uma comemoração!
— Temos que buscar a Claire, não? — perguntara eu.
— Vamos sim! — papai dissera-me, e sorrira pra mim
pelo retrovisor. — Vamos buscá-la na creche e depois comemoramos no seu lugar
preferido.
— Não acredito! — dissera eu, e pudera ver meus
olhos brilharem pelo retrovisor. Meu pai assentira levemente. — Starbucks?
— Sim.
— Ai, quanto tempo não como um Muffin! — dissera eu,
e minha vontade era tanta que poderia materializar um bem em minha frente. — E
nem se fala há quanto tempo não tomo um Cappuccino.
Meus pais riram comigo.
— Mas não é muito bom exagerar no cappuccino. —
mamãe dissera cuidadosa. — Lembro muito bem da última vez que você passou super
mal por ter exagerado no cappuccino.
— Mãe! - reclamei. — Isso faz muito tempo!
— Pra mim, não! — ela virou-se novamente para trás.
— Parece que foi ontem...
— Mãe, eu era pequena...
— Mas pra mim você não deixa de ser o meu bebê!
— Eu não sou mais criança, mãe! — emburrei, cruzando
os braços.
— Oh, meu bebê emburrado! — passou as mãos em meus cabelos,
sorrindo delicadamente. — Nós te amamos filha. Muito!
Sorri, descruzando os braços, sentindo o carinho.
Eu amava tanto os meus pais, eles eram tão
maravilhosos comigo. Aquele momento só confirmava o tão amável eles eram. Eu
estava feliz, nada poderia estragar minha felicidade naquele momento. Tudo
estava em seu devido lugar.
De repente, ouvimos o som da buzina de um carro
seguido da luz de um farol muito alto vindo em nossa direção e meu pai tentara
desviar para a pista oposta, um grande erro. Um carro que vinha na direção
oposta a nossa, colidiu com o nosso carro. Tombei no banco e tudo ficou
escuro...
Acordei do que parecera ser um transe, e me vi sentada
com Letícia e Sofia ainda a minha frente, olhando-me com olhos penosos. Então
tudo era verdade, não foi um pesadelo, no qual eu acordaria e veria meus pais
aqui comigo. Ainda não possuía reação alguma, só continuava imóvel. Como uma
estátua. Talvez eu devesse gritar talvez eu devesse chorar, quebrar tudo que
havia naquele quarto de hospital, mas simplesmente não conseguia demonstrar
reação alguma. Era tanta dor, se eu demonstrasse não mudaria nada, não
adiantaria nada. Absolutamente nada. Chorar não mudaria nada, gritar não
mudaria nada, quebrar tudo que havia ali, não resolveria nada.
Mas que droga! Isso não poderia estar acontecendo
comigo. Mas estava. É típico de minha sorte.
Eu chorava por dentro, gritava por dentro, quebrava
tudo dentro de mim. Pelo menos tentava aliviar a dor incessante. Eu sabia que
qualquer dia um deles me deixaria, iria morrer. Lembro-me de quando eu era
pequena e minha mãe perguntara se eu choraria se ela morresse. E eu disse que
não.
— Por que não, minha florzinha? — ela me olhou
sorrindo de canto.
— Ah, mamãe, por que você não vai morrer... — sorri
pra ela. — Você vai viver pra sempre.
Fizera um gesto com a mão.
— Mas filha, ninguém vive pra sempre... — ela alisou
minha bochecha.
Nunca levei a sério o que minha
mãe me disse. Talvez por que eu era uma criança, não sei. Ou não queria aceitar
que todos nós morremos algum dia.


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